Embirro, mas embirro mesmo, quando ouço que a educação dá-se em casa, na
Escola ensina-se. Primeiro porque torna a escola um lugar onde se
debita matéria, factos e não serve de modelo porque "isso" dá-se em casa.
Depois porque quem tem a infelicidade de não ter pais ou bons pais não
pode ser educado porque isso dá-se em casa. Um professor é um educador.
Um professor não se pode limitar a ensinar. A educação dá-se em casa, na
Escola e na nossa comunidade. Com diz um provérbio africano " é preciso
uma aldeia para educar uma criança".
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Tabus da esquerda
A vitória do Syriza agitou
esta semana que passou. Nas redes sociais percebia-se claramente quem era de
esquerda e quem era de direita. Os da esquerda saudavam a vitória do Syriza e
da democracia e criticavam o facto de não existirem mulheres no governo
enquanto os da direita alertavam para o fim do mundo e da loucura que se estava
a passar na Grécia.
Fui analisar as profissões
dos meus conhecidos de direita e de esquerda. A maioria dos que se declaram de
direita são funcionários públicos, professores ou empregados por contra de
outrem. Na generalidade, todos eles auferem dos direitos sociais conquistados
pela esquerda nos últimos dois séculos, o que não deixa de ser curioso.
Mas mais curioso ainda é
perceber que grande parte dos meus conhecidos de esquerda são trabalhadores
independentes ou freelancers que defendem os direitos sociais que não possuem
mas não desarmam na defesa do Estado Social. E isto deixou-me a pensar, não na importância
do Estado Social ou na sua defesa, mas porque é que pessoas que não usufruem do
Estado Social o defendem e porque é que o Estado Social não chega a todos. Para
que o Estado Social chegue a todos devemos lutar para que todos se tornem
empregados por conta de outrem? Aparentemente sim. Estamos contra os falsos
recibos verdes, o que é justíssimo. Mas um verdadeiro recibo verde, um
profissional freelancer que trabalha quando o trabalho surge, porque é que esse
não tem direito ao Estado Social? Num mundo em Mudança, prevê-se que em 2050,
46% dos empregos sejam de criação própria. Então deixamos 46% dos empregos fora
do Estado Social?
Existe algo aqui que
transcende a lógica. Defender o Estado Social é defender os direitos dos
trabalhadores contra a lógica do grande capital, certamente. Mas defender o
Estado Social é também entender que o mundo mudou e temos novas formas de
trabalho, de emprego. Contudo não temos direitos sociais adequados. E eu
continuo a perguntar porquê?
Um exemplo concreto. Os
actores. A maioria dos actores defende o Estado Social, a maioria dos actores é
de esquerda. E a maioria dos actores nunca teve nem nunca terá um contrato de
trabalho permanente ou que lhes permita auferir do subsídio de desemprego. Mas
são a classe que, sem medo, dá o corpo e a cara pela Esquerda. Mas a verdade é
que a Esquerda não o faz por eles. E porquê? Porque é que um actor, um recibo
verde por excelência, tem de descontar 720 dias para ter direito ao subsídio de
desemprego e um empregado por conta de outrem 360 dias? Isto não nos deve
indignar? A mim indigna-me. Porque é que um recibo verde não pode auferir ao
subsídio de desemprego pelo valor descontado mas apenas pelo tempo de trabalho,
quando sabemos que o freelancer pode receber 10mil euros num trabalho e ficar
seis meses sem facturar nada? E porque é que nós esquerda não falamos disto?
A resposta é simples. A
esquerda tem os seus tabus. Os seus medos. Os seus enclaves que não ultrapassa.
No entanto existe um novo mundo e novas formas de trabalho e por isso a
esquerda tem de abraçar todos e todas que vivem do seu valor profissional e que
querem não apenas uma vida digna mas uma vida cheia de coisas. A esquerda não
pode ter vergonha de desejar uma casa, um ipad, livros, roupa bonita,
maquilhagem.
A esquerda tem de assumir que todas estas
realidades existem e que temos de lhes dar uma resposta justa, tão justa como a
que damos para quem vive das formas de trabalho mais clássicas. Nem mais nem
menos. E por isso apelo para que derrubemos os nossos tabus, para que olhemos
para toda esta gente que é de esquerda mas não tem direitos. Para que a
esquerda assuma que não tem mal nenhum em ser feliz sem patrões e sem ser
empregado por conta de outrem. Para que a esquerda se veja a si própria como
micro ou pequeno empresário sem qualquer problema.
Sem tabus porque esta é
uma realidade que existe e que nós precisamos, em consciência, de lhe dar uma
resposta, de falar dela, de lutar por ela. Porque como disse Marx, que eu ouvi
dizer que era um homem de esquerda, não é a consciência do homem que lhe
determina o ser mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a
consciência.
Obrigado
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
"Charlie, estavas a pedi-las!"
Dia 7, 8 e 9 de Janeiro todos fomos Charlie. Incomodados,
chocados, o Mundo ficou perplexo com o atentado ao jornal satírico Charlie
Hebdo e o ataque frontal à liberdade de expressão. E dia 11 o Mundo saiu à rua
com " Eu sou Charlie", porque todos somos a favor da liberdade de
expressão sem limites. Ora isso foi até dia 11, porque dia 13 já somos a favor
da liberdade de expressão desde que não ofenda ninguém. Porque a
minha liberdade acaba onde começa a do outro. Porque afinal brincar com
Maomé já não tem graça agora, agora já é demais e respeitinho é bonito e eu
gosto. Ou como disse hoje Ana Gomes no twitter, que brincar novamente
com o profeta quando se sabe que muçulmanos não estão de acordo não estão de acordo
(os 600 milhões de muçulmanos não estão de acordo? Terá a Ana Gomes falado com
todos eles e fez a média de sins e nãos?), nem em pensar. Não em nome dela. Mas
em meu nome sim. Porque a minha liberdade não pode ser menor do que a do outro.
Explicando: como ateu não me ofendo com a religião e não me importo que me
condenem ao Inferno. O outro tem toda a liberdade de brincar com o meu laicismo,
de me condenar pelo meu laicismo, de me julgar pelas minhas atitudes. Mas eu
não posso brincar com crenças, com Jesus e Maomé nem Alá porque ofende os
outros. Não posso dizer que Maomé fiz xixi nas cuecas ou Jesus não limpou o
rabo porque me torna uma herege. Ora, eu sou uma herege e é essa a minha
liberdade. Mas se a minha liberdade termina onde
começa a do outros, não posso brincar com Deuses, com livros religiosos,
com as diferentes culturas, com touradas, com circos, com os vegetarianos nem
com os carnívoros. Não posso brincar com noivos e noivas, com baptizados, com
jantares estúpidos e festas idiotas porque tudo ofende alguém. E não posso
falar muito alto sobre a violência doméstica porque " se ele ouve ainda é
pior", nem posso falar sobre o tratamento dado a minorias étnicas "
porque muito já têm eles e depois ainda é pior", não posso falar mal dos
padres " porque estamos na Igreja", nem posso falar mal da minha
vizinha que vê tudo o que é programa estúpido " porque me estou a armar".
E por isso a minha liberdade não é nenhuma. Mas os que se incomodam e ofendem
têm todas as liberdades. E eu fico sem nenhuma porque para mim a liberdade
não tem restrições, excepto as previstas na lei. Quando se ultrapassa a
liberdade, sofrem-se as consequências legais: difamação é um crime,
comportamentos xenófobos é um crime, e todos os crimes têm enquadramento legal.
Porque a minha liberdade é a democracia, a religião que os homens construíram sem
deuses, nem livros divinos, mas pelo homem e para o homem. E eu sou Charlie.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Uma injustiça Queirosiana.
“Em Portugal quem emigra são os mais enérgicos e os mais
rijamente decididos; e um país de fracos e de indolentes padece um prejuízo
incalculável, perdendo as raras vontades firmes e os poucos braços viris.”
Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre.
Gosto muito de Eça de Queiroz. Agrada-me o seu “dandismo”, a
visão desempoeirada da sociedade portuguesa e descrição das mais variadas
virtudes da nossa portugalidade. Mas não gosto nada da frase acima. Talvez (só
talvez) no século XIX esta frase fosse verdadeira, mas actualmente não o é. Em
Portugal emigram os mais rijos, os menos rijos, os mais energéticos e os menos
energéticos. Emigram os licenciados e os que só têm o quarto ano de
escolaridade, emigram os doutorados e os analfabetos, emigra quem pode para
escapar à precaridade e em muitos casos à miséria. Esta ideia de que ficam cá
os que podem, os que se “orientam”, também é de uma enorme injustiça. Ficam por
cá os que querem, os que ainda arriscam, mas também aqueles que desejam ficar e
viver neste país que é o seu. E desejar ficar e trabalhar cá não deveria ser a
excepção, mas a regra.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Não quero mais missas!
Não gosto nada de ir à missa. Cada vez que tenho a infeliz
ideia de fazer mais um esforço, ou porque é um casamento ou um baptizado,
arrependo-me sempre de ter feito este esforço. Não ouço na missa nem a palavra
de Deus nem a palavra de Jesus. Só ouço um sermão sempre impregnado de
moralismos, frases feitas e ideias já muito batidas. A mais batida de todas é
aquela de que devemos " trabalhar " o casamento, não desistir do
casamento. Aparentemente inócua, eu pergunto-me se quem professa o sermão sabe
a história de cada casal e as suas razões para se separarem. Ou qual é o drama
de uma separação se isso os faz mais felizes, mais completos. Jesus não disse
grandes coisas sobre o casamento e não foi porque não teve tempo. Foi porque
outros valores se levantaram como o respeito pelos direitos humanos, a salvação
dos oprimidos ou a convicção de que somos todos iguais. Jesus não foi ao templo
dar uma palestra sobre trabalhar o casamento, foi sim acusar os donos da verdade
de que a sua verdade não era assim tão verdadeira. Eu questiono-me se quem dá a
palestra na Igreja sobre “trabalhar” o casamento pensa nas 40 mulheres
assassinadas este ano. Será que não trabalharam o casamento? Será que não foram
o espelho do outro? Será que não "ouviram", "sentiram" ou
"apoiaram" o outro o suficiente? Estas ideias aparentemente inócuas
fazem muito mal a uma sociedade que se quer livre, feliz, preenchida. E se cada
uma daquelas 40 mulheres não se tivesse sentido compelida a aceitar aquelas
relações um dia mais, se não se sentissem culpadas por não estarem à altura, se
a sociedade e a Igreja lhes tivesse dito VAI,
sai, estamos aqui para te acolher, talvez algumas delas ainda estivessem
vivas.
Com o critério com que julgardes,
sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também.
Jesus Cristo
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