terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Uma injustiça Queirosiana.


“Em Portugal quem emigra são os mais enérgicos e os mais rijamente decididos; e um país de fracos e de indolentes padece um prejuízo incalculável, perdendo as raras vontades firmes e os poucos braços viris.”


Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre.


Gosto muito de Eça de Queiroz. Agrada-me o seu “dandismo”, a visão desempoeirada da sociedade portuguesa e descrição das mais variadas virtudes da nossa portugalidade. Mas não gosto nada da frase acima. Talvez (só talvez) no século XIX esta frase fosse verdadeira, mas actualmente não o é. Em Portugal emigram os mais rijos, os menos rijos, os mais energéticos e os menos energéticos. Emigram os licenciados e os que só têm o quarto ano de escolaridade, emigram os doutorados e os analfabetos, emigra quem pode para escapar à precaridade e em muitos casos à miséria. Esta ideia de que ficam cá os que podem, os que se “orientam”, também é de uma enorme injustiça. Ficam por cá os que querem, os que ainda arriscam, mas também aqueles que desejam ficar e viver neste país que é o seu. E desejar ficar e trabalhar cá não deveria ser a excepção, mas a regra.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Não quero mais missas!


Não gosto nada de ir à missa. Cada vez que tenho a infeliz ideia de fazer mais um esforço, ou porque é um casamento ou um baptizado, arrependo-me sempre de ter feito este esforço. Não ouço na missa nem a palavra de Deus nem a palavra de Jesus. Só ouço um sermão sempre impregnado de moralismos, frases feitas e ideias já muito batidas. A mais batida de todas é aquela de que devemos " trabalhar " o casamento, não desistir do casamento. Aparentemente inócua, eu pergunto-me se quem professa o sermão sabe a história de cada casal e as suas razões para se separarem. Ou qual é o drama de uma separação se isso os faz mais felizes, mais completos. Jesus não disse grandes coisas sobre o casamento e não foi porque não teve tempo. Foi porque outros valores se levantaram como o respeito pelos direitos humanos, a salvação dos oprimidos ou a convicção de que somos todos iguais. Jesus não foi ao templo dar uma palestra sobre trabalhar o casamento, foi sim acusar os donos da verdade de que a sua verdade não era assim tão verdadeira. Eu questiono-me se quem dá a palestra na Igreja sobre “trabalhar” o casamento pensa nas 40 mulheres assassinadas este ano. Será que não trabalharam o casamento? Será que não foram o espelho do outro? Será que não "ouviram", "sentiram" ou "apoiaram" o outro o suficiente? Estas ideias aparentemente inócuas fazem muito mal a uma sociedade que se quer livre, feliz, preenchida. E se cada uma daquelas 40 mulheres não se tivesse sentido compelida a aceitar aquelas relações um dia mais, se não se sentissem culpadas por não estarem à altura, se a sociedade e a Igreja lhes tivesse dito VAI, sai, estamos aqui para te acolher, talvez algumas delas ainda estivessem vivas.

Com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também.

Jesus Cristo

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Maria Capaz.

Finalmente um site de mulheres e sobre mulheres. Sem tretas de maridos, filhos e outras coisas. Um site feminista dedicado à causa das mulheres que ainda são as mais sacrificadas em casa, as que mais sofrem com o desemprego e com trabalhos iguais aos dos homens mas com salários diferentes.Não é aconselhável a mulheres tretas que vendem os seus casamentos como perfeitos, os filhos como maravilhosos e os empregos como "coisas menos importantes" entre maridos e filhos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Tesouros de Espanha: uma exposição a não perder.



Domingo passado fui ver a exposição Tesouros dos Palácio Reais de Espanha, na Gulbenkian. Antes que digam que não têm dinheiro para isso, no domingo não se paga nada o dia todo. Eu fui a um domingo. A exposição é lindíssima, bem organizada, feita para toda a gente. Percebe-se perfeitamente as dinastias espanholas, os casamentos aqui com os "tugas" e a influência que tudo isto teve na arte espanhola. São quadros magníficos, retábulos cheios de pedraria e uma moderação que é raro ver em exposições. Geralmente expõe-se tudo para mostrar tudo .Nesta exposição expôs-se o que importa para percebermos o que é importante.Não vos vou revelar mais porque têm mesmo de ir. 
Saí de lá com a sensação de que o que eu sou, esta mulher que aqui habita, só pertence a este século e a mais nenhum. Porque não nasci princesa nem duquesa, nem lavadeira nem criada.  Sou a típica classe média, a mesma que este governo quer acabar. Que gosta de ver exposições e tem direito a elas, que não precisa de ser princesa para sonhar em ter estudos, nem está condenada a uma vida de servidão ao serviços de senhores feudais. E esta liberdade é um verdadeiro tesouro.

Para mais informações consulte:  http://museu.gulbenkian.pt/museu/pt/Exposicoes/Exposicao?a=503


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Sem julgamentos.

A minha vida não é perfeita. A minha vida está cheia de problemas, de coisas dificeis de resolver. E nestas alturas percebo sempre, sempre quem está do meu lado: a minha família. São eles que me levantam a auto-estima, que me levam a acreditar em mim, a perceber que eu nunca estarei sozinha. E isso vale tanto....

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Sócrates e os direitos constitucionais

Não, não acho que a democracia esteja em causa com a prisão de Sócrates.Porque a justiça tem de ser independente da política e a política não deve entrar em caminhos da justiça. Chama-se a isto direitos constitucionais.Agora, alguém pode explicar isto ao Correio da Manhã?

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O lápis azul voltou.

Parece mentira mas não é. A revista "Análise Social" foi retirada de circulação porque um dos artigos, sobre graffiti, continha imagens impróprias para um grande grupo comercial, que começa por P e D. Esse grupo comercial é um dos financiadores do ICS e, para não criar atritos com o sponsor, o ICS retirou todo o número de circulação. Atentado à liberdade, censura, ataque à liberdade de imprensa, tudo o que lhe quiserem chamar. A censura de volta 40 anos depois do 25 de abril. Porque as ditaduras não são só políticas, também são económicas.Transcrevo na íntegra o texto de tomada de posição do Ricardo Campos (autor do ensaio visual "A Luta Voltou ao Muro")sobre a decisão do diretor do ICS em retirar de circulação o último nº de "Análise Social".

"Aqueles que me conhecem sabem que não tenho por hábito fazer comentários e colocar posts no facebook. Todavia fui arrastado para uma situação completamente inesperada e que assumiu proporções que merecem um comentário da minha parte.
Como é do conhecimento público, um ensaio visual que submeti à revista Análise Social foi alvo de censura por parte do director do Instituto de Ciências Sociais, tendo sido retirado de circulação. Aproveito para agradecer a solidariedade e as palavras de apreço de muitos colegas que consideram este tipo de atitudes inaceitável numa academia que devia preservar a liberdade de pensamento, a reflexão intelectual e o debate sem preconceitos. Aproveito, ainda, para agradecer a posição assumida pelo conselho editorial da revista, que demonstrou honestidade intelectual e rigor na forma como geriu toda a situação.
Como é natural recebi esta notícia com imensa surpresa e com algum choque. Surpresa, desde logo, porque não houve qualquer resistência anterior à publicação do meu ensaio visual. Foi por isso, com naturalidade, que recebi a informação de que a minha contribuição iria ser publicada no mais recente número da revista.
Surpresa, também, pelas razões invocadas que não focam qualquer questão de natureza científica ou ética que debilite, quer o argumento apresentado, quer a validade do mesmo. Tenho pesquisado ao longo da última década as questões da arte urbana, do graffiti e dos murais. Publiquei em diversas revistas nacionais e internacionais sem que, até aqui, alguma vez o conteúdo das imagens que apresentei tivesse sido alvo de qualquer juízo estético ou de valor. O que sempre esteve em causa foi o potencial ou pertinência analítica das ilustrações fotográficas. Nunca, por isso, me recusaram a publicação ou fizeram qualquer tipo de censura sobre o conteúdo imagético das fotografias.
As imagens que apresentei existem na rua e estão disponíveis ao olhar de qualquer transeunte. Considero que estas constituem uma expressão cultural e política singular, enquadrada num determinado contexto histórico e foram consideradas enquanto tal. São, obviamente, manifestações de indignação, de revolta e angústia, que alguns entendem ser de gosto duvidoso. A mim interessam-me as considerações de ordem científica que decorrem de uma análise da rua enquanto espaço de manifestação política, independentemente do choque que estas formas expressivas possam eventualmente causar. Aliás, enquanto cientista social, não me parece que existam objectos (ou imagens) de pesquisa menos dignos que outros. Mal estaríamos se começássemos a autocensurar-nos, tendo em conta critérios de bom gosto na aferição da forma como as pessoas se expressam e comunicam. Se censurássemos todo e qualquer objecto de estudo que pudesse ferir as susceptibilidades do público ou dos poderes instituídos (políticos, económicos, religiosos...) muitos fenómenos sociais ficariam fora dos nossos olhares.
Lamento, que o ICS tenha optado por uma situação que, a meu ver, em nada beneficia a imagem da revista e que considero pouco respeitosa para com um colega de academia que cumpriu todas as exigências éticas e científicas que devem reger a nossa conduta.
Que este episódio sirva, também, para repensarmos não só o nosso papel enquanto cientistas sociais, mas também para questionarmos o estado actual das instituições académicas e dos critérios que regem a “gestão” dos seus conteúdos".

Ricardo Campos