Vai
o morto no caixão e todos exclamam " que bem que vai o morto, que roupa
tão bonita". O caixão está bem luzidio, as rendas bem bordadas, um branco
celestial cobre o morto. Todos olham para o morto com admiração, com apreço. A
capela está cheia de flores e de grandes dignatários e o padre empenha-se
numa bonita homilia de elogio ao morto, aos seus esforços, à sua dedicação. O
enterro é alegre mas digno, cheio de elogios, mas conservando-se o
espírito reservado porque afinal é um funeral e o morto vai tão bem. É
uma morte que valeu a pena, porque só a morte permitiu a baixa do défice, esse
bem necessário. Morreu um país industrial, morreu um país científico, morreram
as pequenas lojas, morreram as ideias, o pensamento, a arte e o design, morreram os jovens e morreram os
velhos. Mas que importa? O país morreu mas vai bonito e os dignatários sabem
apreciá-lo. Que lindo morto que foi Portugal!
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
A agenda mais gira de 2014!
O que faltava para juntar às malas, às carteiras, aos porta-cartões e ao livro? Só a agenda para 2014! Já chegaram e podem ser encomendadas personalizadas, ou seja com o vosso nome, a agenda de 2014. Afinal, o nosso mundo precisa de organização! Para saber mais envie um email para filipemarisa@hotmail.com ou por mensagem aqui no blogue.
Bjs
Marisa
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Os bolseiros.
É provável que, quando começarem a ler este texto, tenham sido
bombardeados com histórias de bolseiros e da sua vida. E é provável que tenham
sentido empatia com as histórias mas tenham ficado na mesma sobre a questão das
bolsas. Porque a imprensa não explica nem o que é uma bolsa nem o que é um bolseiro,
ficando no ar aquela ideia de que são aqueles miúdos que continuam a estudar e
a viver em casa dos pais. Bem, sim e não. Porque existem bolsas de estudo e
bolsas de investigação científica. Confusos? Passo a explicar. Uma bolsa de
estudos é dada a alunos carenciados que, devido à sua situação económica e/ou
dos pais, recebem por mês um valor que lhes permite pagar as propinas ou uma
ajuda para o pagamento das propinas. Essas bolsas são uma ajuda ao estudante,
que necessita dessa bolsa para poder concluir o 12º ano, ou a sua licenciatura
ou até o seu mestrado. São bolsas pequenas, não passam dos cento e pouco euros
por mês e ajudam, apenas ajudam. Até agora, o Estado ainda não mexeu nestas
bolsas, embora a papelada para se pedir a bolsa de estudos continue a aumentar.
E depois existem as bolsas de investigação científica, que são aquelas bolsas
pagas a quem está a fazer um doutoramento, ou pós-doutoramento ou pós-pós-
doutoramento. Bem, esta gente na prática não são estudantes. Não, não são. Um
exemplo prático. A tese de mestrado de uma aluna (paga pelos pais, suponhamos)
levantou a questão de que a enzima x é essencial para combater a leucemia
infantil. Então, essa aluna propõe-se a estudar esta enzima na esperança de
encontrar uma cura para a leucemia infantil. Pede ao Estado uma bolsa de investigação
científica e receberá, por mês, um valor (geralmente, em Portugal, são cerca de
980 euros) e estuda durante quatro anos essa enzima. Mas, a cada ano, tem de apresentar provas do seu
esforço para que lhe renovem a bolsa mais um ano, até completar os quatro.
Imagine que a investigação permitiu avançar sobre a doença e agora são precisos
testes. A aluna pede então bolsa de pós- doutoramento, para continuar a estudar
a aplicação da enzima na vacina . Bem, isto não é um estudo, é um trabalho. Mas
não se chama trabalho porque o Estado patrocina estas investigações através de
bolsas e não tem capacidade de absorver estes investigadores nos seus
laboratórios. Então, cada novo ano estes investigadores concorrem a estas bolsas até
que algum laboratório ou empresa exterior os venha buscar e levar todo este
saber para outro país. Mas a verdade é, que enquanto há bolsas, os
investigadores preferem ficar por cá. Agora quando em 3433 candidatos, o Estado
só atribui 308 bolsas, significa que os restantes 3124 bolseiros estão a parar
as suas investigações e, muitos deles, irão sair do país. E talvez aquela aluna
vá para os EUA onde a sua investigação vai ajudar a produzir a vacina contra a
leucemia infantil.É por isso que isto das bolsas é tão revoltante. Porque não é apenas uma geração inteira que se perde, é
todo um mundo de saber que desaparece.
No fim último, é o futuro que se vai embora.
O futuro dependerá daquilo que fazemos no presente.
Gandhi
O futuro dependerá daquilo que fazemos no presente.
Gandhi
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Sei que não vou por aí!
Posso estar a ser injusta, posso estar até a ser demagógica. Posso sim. Mas quando me lembro daqueles que votaram de acordo com a imposição partidária na co-adopção e não de acordo com a sua consciência, algo que diz" continua a não ir por aí..."
Cântico negro
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí.
José Régio
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
O medo do outro
O medo mete medo, porque o medo é paralisador e provocador.
Podemos ter medo de quem nos quer fazer mal, e esse medo é legítimo, ou quase
sempre legítimo. E depois há o medo que nos provoca, e esse medo não paralisa
porque é um medo reactivo a tudo o que não compreendemos, a tudo o que não
catalogamos. Este é o medo que toma o nome de racismo, xenofobia, preconceito.
Ontem esse medo voltou à praça democrática portuguesa, quando o partido do
governo, depois de ter passado a lei da co-adopção, dá o dito por não dito e propõe
um referendo. Se cada vez que uma decisão polémica precisa de referendo, a
própria noção de existirem deputados eleitos para tomarem decisões deixa de
fazer sentido, sobretudo porque quando as questões são económicas e desastrosas
ninguém é chamado à praça pública. E agora, este movimento dos homossexuais
católicos , que só existem abertamente porque a sociedade se abriu à diferença,
diz-se contra a co-adopção. E eu não percebo de que é que têm medo. Duas
pessoas que gostam uma da outra, tal como os homossexuais católicos gostam por
certo, não conseguem amar juntas uma criança? E um casal " normal" de
um homem e uma mulher, têm livre passe no amor? Não existem más mães nos casais
heterossexuais nem maus pais, pais ausentes, nos casais " normais"? O
sexo que temos e fazemos é suficiente para nos catalogar como aceites e
responsáveis caso amemos dentro das convenções ou indignos e incapazes se
amarmos quem o coração nos ordena? Eu
não creio nisso.
O amor é pessoal e intransmissível
e não depende de sexo, de orientação sexual, de pressupostos da sociedade. O
amor de duas meãs pelos seu filhos e de dois pais pelos seu filhos é tão legítimo
quanto os amores “normais”. Porque amor é amor e deve ser só isso que importa.
Não os nossos medos irracionais que não conseguem compreender quem é diferente
e não conseguem catalogar o que para nós é desconhecido. Mas quando tema
é crianças e o seu direito a ter direitos iguais às outras crianças, o enfoque
deve ser o amor e não o medo do que não conhecemos, do que não entendemos, do
que não sabemos lidar. E se os homossexuais católicos não conseguem compreender
isto, então pouca fé têm estas pessoas no seu próprio ser.
Quando o tema é crianças, só o amor se justifica. Só o amor.
O acolhimento não deve estar
ligado a julgamento. Acolhe-se porque se ama, independente do mérito da pessoa."
sábado, 11 de janeiro de 2014
A querida,a maravilhosa,a boa da troika.
É uma característica muito nossa: os estrangeiros são melhores em
tudo e lá no estrangeiro é que é bom, excepto quando se fala na nossa cozinha e
do nosso vinho e do nosso fado e aí somos do melhor. E futebol é bom é cá, que
somos os melhores do Mundo. Mas assim para os negócios e para o pensamento é
que não, que lá fora é tudo bom, lá fora é que sabem. Já ouvi, como vocês
decerto, este discurso muitas vezes em familiares, amigos, gente vária. Mas
nunca o tinha ouvido de um ministro, neste caso da ministra das finanças,
aquela personagem recta e sonsa que de vez em quando aparece na televisão. É
sempre bom quando nós dizemos ao torturador que eles são lindos, magníficos e
bons profissionais. Lembra-me o discurso das mulheres agredidas nos anos 60 que
" o homem até é bom, a culpa é do vinho, o vinho é que é pior". O que a nossa triste ministra disse foi que o
programa é óptimo, o povo é que é do piorio, um horror. Diz a ministra que o
programa é um sucesso, travado por um " diálogo de respeito mútuo".
No fundo, os chatos são os tais do tribunal Constitucional, mas pronto o
programa " é muito exigente e, no final, " as instituições vão estar
mais preparadas para lidar com a crise". Não sabemos quais são as
instituições, mas suponho que não sejam os hospitais, nem os tribunais, nem a
escola pública desmantelada pelo Crato.
E se, apenas se, algo correu mal, é culpa do Sócrates porque quando os
meninos do CDS e do PSD foram ter com a Troika não falaram de " medidas,
metas orçamentais ou do envelope financeiro". Então falaram sobre o quê?
Sobre o bom tempo que faz em Portugal e dos travesseiros da Periquita? Chamaram
alguém para pagar as contas mas nem sabiam quais eram, nem quais os juros,
nem o tempo que demorava a pagar? Então que foram lá fazer? Já sei: foram entregar o país de mão beijada porque lá fora
é que sabem, lá fora é que são bons.
Oh gente da minha terra, oh ministra parvinha, sonsinha e lambe botas. Não lhe fazia mal ler as respostas do ministro das finanças grego e
saber que o povo grego pode estar vergado, mas não lambe as botas a
europeuzitos mandões de segunda. E só para terminar, o eurodeputado que chefia
a missão da avaliação da troika, Othmar Karas, afirmou que Portugal foi muito
prejudicado por erros da Troika e pela falta de transparência do programa.
É incrível como toda a gente percebeu que isto nos fez tão mal, excepto a
ministra, que agradece a " ajuda da task Force da comissão europeia".
Pois, obrigadinho pá. Agora vão-se lá embora e levem esta ministra. Afinal ela
gosta tanto de vocês e nós gostamos tão pouco dela..
"Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi"
Amália Rodrigues
P.s- Entre aspas estão as citações da ministra ao grupo de eurodeputados que veio avaliar a actuação da troika em Portugal. Tal e qual, sem alterações.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
A culpa é feminina
Culpa é um substantivo, feminino, singular. A própria gramática da palavra é esclarecedora: a culpa é feminina. Eva, culpada do pecado do Mundo porque procurou o conhecimento, é a encarnação da culpa feita mulher. E, no islão, a culpa é quase exclusivamente feminina. Se na Igreja católica, as mulheres não têm desejo sexual e devem cobrir-se, resguardar-se, para não acordar o horrível e incontrolável desejo sexual masculino, no islão são as mulheres que têm sete partes de desejo sexual e os homens apenas uma, pelo que devem cobrir-se, resguardar-se, para não atentar contra o desejo sexual dos pobres homens. Ter ou não aqui importa pouco, porque a culpa é feminina e apenas feminina. É sabido que muitos homens não gostam de mulheres, não lhes suportam a voz, quando mais a ideia da sua independência. E as culpam de tudo e lhes ignoram os direitos, como na India onde cada dia se reportam casos de violação assustadores. Mas hoje, no meio de uma notícia que nos parece quase cómica, a Arábia Saudita , o único país do Mundo que tem o nome de uma família , os Saudi, e um dos países com mais dinheiro no Mundo, considera que o aumento do assédio sexual sobre as mulheres de deve a três factores: falta de sentimento religioso ( não sei se das mulheres ou dos homens, mas estou tentada para a primeira hipótese), falta de leis específicas sobre assédio sexual e uso de rímel. Sim, é isso mesmo que estão a ler: uso de rímel. Na Arábia Saudita as mulheres usam sobretudo o Niqab, ou seja são cobertas dos pés à cabeça mas deixam os olhos à vista. Aposto que depois deste estudo o Niqab deixará de ser usado e será obrigatório a burqa que tapa tudo, incluindo os olhos. Mas também aposto que nada resolverá esta hipótese porque a culpa será feminina. Pode não ser através do rímel, mas através do perfume, da forma de andar, de mexer as mãos, mas uma coisa é certa seja na religião católica, seja na islâmica, seja na India ou em Portugal : a culpa é feminina. Pobres, pobres homens…
Uma mulher é apedrejada pela acção que poderia ter sido praticada por um homem perfeito.
Carmem Sylvia
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