segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Ambição

Leio,(na Caras, claro!) que a Cristina Ferreira é ambiciosa e procura sempre mais. Esta frase estupenda é dita pela própria, que se assume com ambiciosa, como se a ambição fosse apenas uma qualidade. Não é a única, parece que a ambição,  essa "qualidade" outrora considerada um defeito (e dos maus), se tornou uma virtude retemperadora e fascinante. A ambição, o sermos "profissionais implacáveis", o "atingir objectivos", são termos da gestão de que a vida do dia-a-dia se apropriou para tomar conta da própria vida. E este enorme disparate, esta enorme falta de senso, foi sendo repetida até ao infinito da parvoíce e usada como consideração elogiosa da personalidade e não o defeito que representa.  Francis Bacon, um filósofo é claro, dizia que a  a "ambição é como a bílis, humor que torna os homens ativos ardentes, cheios de alegria e movimentados” mas se não houver limites “começa a ser maligna e venenosa”. Os homens ambiciosos, dizia Bacon, que encontram caminhos abertos para a sua ascensão e continuam a progredir, “são mais negociosos do que perigosos”, mas se forem contrariados nos seus desejos, “tornam-se secretamente descontentes, e projetam mau-olhado sobre os outros homens e sobre as coisas". O problema da ambição é que esta não encontra limites, quando temos o que queremos procuramos sempre mais, numa escala que não tem fim nem tectos morais. Porque devemos ter objectivos e sonhos, obviamente, mas quando a ambição toma conta da nossa vida e nos revelamos sempre ambiciosos, estamos a dizer que somos capazes de fazer algumas coisas ( ou bastantes coisas)  menos éticas,  ou  que simplesmente colocamos os nossos objectivos e sonhos acima dos sonhos e objectivos dos outros. Aprendi no Dexter que os melhores gestores ou CEO  têm características psicopatas, ou seja são ambiciosos e implacáveis. O que significa que não cultivam outras coisas, talvez menos importantes é certo, como o amor, a amizade, e uma boa conversa.  Talvez não possamos ser todos Mourinhos, nem Zeinal Bavas nem Ronaldos.  E talvez existam outras coisas tão importantes como o sucesso profissional que devemos ambicionar como, por exemplo, uma vida repleta de sonhos, de amigos, de coisas boas à nossa volta. Porque quando nos concentramos em nós, e apenas em nós, mais tarde olhamos em volta e só vemos conquistas, glórias e prémios,  mas deixamos de ver pessoas. E aí, de que serviu a glória do mundo quando não temos com quem a partilhar?

"Mas a ambição do homem é tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela."

Maquiavel, Nicolau

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Pão por Deuuuuuuuuuuuuuuus

Eu nem dormia na noite anterior! O dia 1 de Novembro era, para as crianças da aldeia onde nasci, o seu feriado preferido. A minha avó cosia todos os anos dois novos sacos para o Pão por Deus, bordados à mão,  porque só um não chegava. Quando o primeiro enchia, corríamos para nossas casas para o despejar e buscar o segundo. O meu pai ficava à porta à minha espera para que eu não perdesse tempo. Na noite anterior a minha mãe comprava as línguas de gato, os figos secos, os rebuçados e os beijinhos, de longe os meus bolos preferidos. Lambia a parte de cima dos beijinhos, aquela massa amarela, ou rosa ou azul de açúcar e deixava para comer depois a bolacha estaladiça ou nunca as comia porque o que eu gostava mesmo era do açúcar, tal como todas as crianças. No dia 1 de Novembro saíamos bem cedo, em grupos ou até sozinhos, porque nesse dia estava tudo na rua e ninguém se importava. Os mais novos iam aos colos das mães e assim apresentavam-se  à aldeia" olha, tão grande que ele está" ou" que rico menino". Nas casas mais pobres, que as havia, recebíamos fruta e nas mesmo muito pobres não íamos, porque toda a gente  da aldeia sabia da vida de toda a gente. E fazíamos fila para as casas que compravam os mini chocolates, tão raros na altura! Uma vez recebi uns smarties e senti-me no céu. Mas o Pão por Deus também era a forma de os meninos e meninas pobres da minha aldeia terem, durante dias e dias, doces e algum dinheiro (porque havia quem desse dinheiro) que  no resto do ano lhes era vedado. Quem nunca viveu o feriado de Todos os Santos (de longe o mais democrático para os Santos), e a magia do Pão por Deus, nunca entenderá que as bruxas e os diabos dos americanos são uma forma de Carnaval pobre fora de tempo. E que a magia do Pão por Deus basta por si para tornar o dia mais feliz de tantos meninos e meninas. E que matou a fome de algumas famílias pobres, que nesta altura do ano tinham em casa a abundância que lhes faltava o resto do ano. Talvez seja pouco, mas em tempos de crises que vivemos, isto tudo parece-me tão tanto....

Ó tia, dá Pão-por-Deus?
Se o não tem Dê-lho Deus!
Provérbio popular


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Tipo Uau! Que fantástica reforma do Estado para a Cultura!!! UAU!!!!

Bem pessoal, acedi agora à reforma do Estado feita pelos senhores do governo. Malta, o texto não passava nem no guião inicial de apresentação de uma tese de mestrado. O quadro teórico é mau, as formatações não existem e no início a nossa crise começa em 2011 e a meio do texto em 2008.  Tipo, ya!!!
Ainda não li tudo mas já fui ler a FANTÁSTICA REFORMA DO ESTADO PARA A CULTURA!! Eh pá, tipo é bué! É mesmo ya e bué. Leiam isto, na página 78 e 79!

Reforma do Estado para a Cultura

"A função do Estado na Cultura tem de sair da mera dicotomia 
entre a preservação do património e o apoio à criação artística: 
o Estado tem de ser, cada vez mais, facilitador na relação com 
a referência e a experiência cultural, da fruição e acesso de 
cada cidadão à cultura. Este papel acrescido significa 
responder à procura com mais informação, com mais parcerias, 
com uma maior descentralização, com a colaboração – sem 
sobreposição, dirigismo ou substituição - com as autarquias, 
empresas e sociedade civil; com apoio à produção e à 
internacionalização; a continuar a encontrar novos públicos em 
conjunto com as indústrias criativas, o turismo e a educação."

Sim, e como? Concordamos com o que escreveram, toda a gente escreve isto no 12º ano ,na boa. Agora como vamos fazer isso? Bem, está aqui a resposta!

"Esta função, significa garantir que tanto o património como as 
várias formas de expressão cultural contemporânea podem ser 
encontrados; que existe uma maior referenciação dos bens 
culturais; uma desmaterialização no acesso arquivístico e 
documental e o alargamento dessas possibilidades na área do 
livro e da leitura. A abertura do acesso à cultura – tanto virtual como geográfico - qualifica e responsabiliza todos os cidadãos e entidades públicas e privadas, servindo de base à inovação e 
a um modelo de desenvolvimento que tenha na cultura um 
referencial importante."

Ou seja: vamos colocar coisas on-line (que é o que se tem feito), tanto nas bibliotecas como nos museus. Está bem. E as bibliotecas vão estar abertas aos fins de semana? Eh lá, não sabemos. E os museus vão ter serviços educativos acessíveis a todos? Eh lá, não pensamos nisso. E vão ficar abertos depois das seis, que é quando o público em geral consegue ir ao museu? Eh, lá pois isso agora..... Ah, mas é possível que as empresas privadas colmatem as falhas do Estado, podendo garantir o funcionamento dos museus e bibliotecas depois das seis? Olha, que engraçado não pensámos nisso.... E vai haver apoios para a criação artística? Para o teatro? Para o cinema? As empresas privadas de audovisuais vão ser gravemente punidos por não pagarem os fundos devidos para o cinema, como está na lei mas não está a ser cumprido?  Olhe, leia mas é o guião. É o que lá está e pronto! E assim, a montanha não pariu um rato. Pariu um hamster..

Para ler na íntegra.


Muito barulho para nada
W.Shakespeare

terça-feira, 29 de outubro de 2013

300 milhões de falantes de português...

Saiu hoje no Público (dia 29 de Outubro de 2013) que nos próximos 5 a 10 anos seremos 300 milhões a falar português. E fala-se também da importância da língua para a ciência, para a economia, para a cultura. E para a união dos povos da lusofonia e para as potencialidades da língua. E eu penso que o melhor da língua portuguesa é a poesia e a prosa que dela sai e que 300 milhões de pessoas a poderão entender e saborear. Por muito que se goste de Pablo Neruda, nunca entenderei a melodia das palavras como um peruano, um espanhol ou um chileno. Mas poderei entender a cadência dos sons de um Ferreira Aguilar, de um Mia Couto, de um Pepetela, de uma Florbela Espanca... E sobretudo entendo muito e muito bem, a beleza deste poema que do Brasil nasceu mas que ao mundo do português falado e escrito foi dado.


Soneto da Fidelidade
(Vinícius de Moraes)

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
E que a poesia e o português seja eterno enquanto dure, seja ele falado por 300 milhões ou por 3 pessoas...

sábado, 26 de outubro de 2013

Semanas e percentis


Quando um bebé nasce, todo um outro mundo temporal se abre para os pais. Os dias voam, as semanas passam sem dar por isso, e aquela pequena coisa que nem sequer fala ou anda, domina dois adultos perfeitamente saudáveis  e aparentemente racionais. O que é estranho é quando esses dois adultos se esquecem que já existiu uma vida pré-bebé e até costumavam usar uma linguagem perfeitamente ajustada que torna o mundo entendível por todos e, de repente, falam-nos em coisas estranhas como o percentil  e as semanas de existência da criatura. De repente, o bebé já não completa um mês, nem um mês e meio mas sim quatro semanas, seis semanas, oito semanas. Até aqui tudo bem, o problema começa nas vinte e oito semanas e aí não sabemos se o bebé ainda não gatinha ou se já está a entrar na pré-adolescência. E quando os progenitores nos param de torturar com as charadas das semanas, entram nos 16 meses da criatura e por aí fora. Nunca hei-de saber se existe uma combinação secreta entre os que têm filhos para torturarem os que não têm, mas desconfio que sim. Por isso, decidi que agora à pergunta " que idade tens?" responderei  1716 semanas ou então 396 meses e depois façam as contas. Mas o que ainda me “fascina “ainda mais é a guerra dos percentis. Ninguém sabe o que é um percentil até ter um puto para cuidar ou ter amigos que nos falem constantemente disso. Agora, o verdadeiramente fascinante é assistir a uma conversa entre pais, onde ganha o bebé que tiver o percentil maior. Eu creio que o percentil nos bebés é equivalente às notas no liceu e, segundo os pais, deve ter uma ligação directa. Ainda vou ouvir uma mãe a gabar-se do seu filho ter entrado em medicina porque o percentil dele sempre foi muito elevado, já às 12 semanas o percentil era elevadíssimo!!!!
Resumindo: semanas e percentis podem ter todo o sentido e serem dados estatísticos completamente válidos, mas convém que os papás se lembrem que já houve um momento que semanas se convertem em meses e depois em anos, num ritmo completamente crescente e natural, e que percentis se transformam em gramas, quilos e , nalguns bebés e em muitos adultos em calorias desnecessárias. E também que se lembrem que já nos é difícil entender o bebé, não precisamos de deixar de entender os pais.

Quando nos fazemos entender falamos sempre bem.


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Estar sozinho....

Às vezes, temos uma absoluta necessidade de ficar sozinhos. A culpa não é dos outros, não estamos deprimidos, nem mal disposto, estamos apenas com necessidade de ficar uns momentos sozinhos. Sem barulhos, sem perguntas, sem nada: um bocadinho sozinhos. Eu tenho esta necessidade frequentemente, lembro-me de sonhar em viver sozinha com  a idade de sete anos. Não, nada de sonhos de casamentos, barbies e outras coisas, o que eu desejei sempre foi ter a minha casa. Mais do que a minha vida, a minha casa. E, obviamente, que o consegui, sem desculpas. Porque quando se quer muito, mas muito uma coisa, consegue-se, mais tarde ou mais cedo. Ao longo da vida conheci muitas mulheres e homens como eu, que adoram ou adoraram viver sozinhos. E une-nos este sentimento de necessidade de estar sozinhos, sem refeições partilhadas, sem ninguém em casa, absolutamente sozinhos. E raramente os que gostam de estar só são pouco sociáveis, ou deprimidos ou solitários. Todos os conheço padecem do inverso: um gosto em estar com os outros sem se queixarem de mães, pais, ou maridos, porque esses só lá estão quando convidados. Se sofre deste mal que a sociedade condena, esta vontade de estar sozinho, então saiba que não está só. Que somos muitos por aí os que gostam de  ter uma casa vazia e de uma vida cheia. E não caia na patranha de que a vida é melhor a dois, ou a três ou seja lá o que for. A vida será como a decidir viver e se for sozinho ou sozinha, então está acompanhado por muitos de nós.
E  se, como é o meu caso, de repente mudar de ideias seja por que motivo for, então terá sempre a certeza de que o caminho que seguiu foi o melhor e este também o será. Mas, em dias como hoje, meu querido, o que eu quero mesmo é estar sozinha...

A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.
Fernando Pessoa


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Cheguei a casa.....



Finalmente, estou em casa, na minha casa .Desde Junho que eu não estava em casa, mas finalmente cheguei. Casa não é o lugar onde vivemos, casa são as paredes com as nossas coisas, os nossos objectos que nos definem e que tanta falta nos fazem. Nós somos também os objectos que temos, que levamos de um sítio para outro. E hoje, ao colocar as mantas do meu cestinho, senti-me finalmente em casa....




"En mi casa he reunido juguetes pequeños y grandes, sin los cuales no podría vivir.
Son mis propios juguetes. Los he juntado a través de toda mi vida con el científico propósito de entretenerme solo.
El niño que no juega no es niño, pero el hombre que no juega perdió, para siempre al niño que vivía en él y que le hará mucha falta.
He edificado mi casa también como un juguete y juego en ella de la mañana a la noche."
Pablo Neruda