domingo, 19 de maio de 2013

Com a cabeça no espaço...

Em 1986, ano em que entrei na escola primária, o sonho de muitos meninos e meninas era ser astronauta, ir passear ao espaço.  Hoje, passados 27 anos depois com a crise só o Canadá tem um programa espacial activo. Mas a era do glamour, de se lançarem foguetões para o espaço e de se descobrirem novos mundos e novos sonhos está parada. No entanto, este astronauta Chris Hadfiled devolveu, durante toda a sua missão, um bocadinho do sonho a todos nós com as suas palestras no espaço: como se chora no espaço, como se come. Vejam no youtube, vão gostar. E para terminar em beleza, em apoteose, fez este cover do Space Oddity, do David Bowie. Ás vezes ainda vale a pena sonhar com o espaço...

http://www.youtube.com/watch?v=KaOC9danxNo

terça-feira, 14 de maio de 2013

O mundo tem muitas cores e muitos amores....


Nasci com horror ao preconceito, o que é um erro grave na minha pequena sociedade. Desde sempre achei que as pessoas devem amar quem entenderem, casar com a cor que entenderem, viver da forma que lhes apetecer. Sempre entendi demasiado bem todos os que são estranhos nesta sociedade, talvez porque eu própria também não sou nada normal. Eu sou demais no pior sentido da palavra para os outros: falo alto demais, expresso-me demais, gesticulo demais e até tenho cabelo a mais.
Por isso, numa sociedade em que a calma, o respeito pelas convenções, o saber passar pela vida devagar é muito apreciado, eu sou uma ave rara, mas daquelas que incomodam. Mas não incomodo tanto quanto os homossexuais e os casais com cores diferentes. Ainda hoje, nos muitos cafés por onde deambulo, ouvi uma senhora a comentar para o marido que " aquela rapariga tão linda a namorar com um preto". Nem sequer vou fazer a apologia do que o preto era bonito, porque nem era. Mas ela olhava para ele, e ele para ela, como se olham todos os casais apaixonados, em todos os lugares do mundo, tão vasto, tão enorme e tão maior. A senhora e o marido não viram, ou não quiseram ver, como ele lhe pegava na mão, como ela se embevecia quando ele lhe falava. A senhora e o seu marido só viram que o filho ia ser mulato" mas até há mulatos bonitos". Estas conversas deixam-me triste por perceber que nem o amor é imune ao pre-conceito do que deve ser, do que é suposto ser. É como as conversas sobre os casamento gays, em que há sempre a piadinha" mas quem é que faz de noiva? E uma delas, vai de noivo?". Nem vale a pena responder, nem rir, nem chorar. A piada está gasta e já era velha quando nasceu.
O mundo tem tantas cores como os amores que existem por todo o lado. E desabrocham na primavera, tal como um dia desabrochará uma era melhor em que quem ama é apenas amado e alvo de amor. E assim será visto assim, apenas assim, como um ser apaixonado. Só e apenas um ser apaixonado.
Mas que sei eu? Sou apenas uma miúda que fala demais, que pensa demais, que se intromete demais. E isto talvez porque a felicidade dos outros me interesse mais que a sua infelicidade. E por isso, porque o amor também me move, serei uma voz defensora dos amores, de todos os amores, de todas a cores, de todas as maneiras. Porque o amor é o caminho e não há outro melhor.

Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.
Friedrich Nietzsche

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Os meus avós.


O meu avô não sabia ler nem escrever. A minha avó também não. Nascidos na década de 20, de famílias pobres, não havia sequer escola na aldeia onde foram crianças. Tiveram 10 filhos, todos frequentaram a escola primária. Um luxo, naqueles tempos. Só a mais nova conseguiu tirar o nono ano. A minha mãe só voltou a estudar depois dos 50, naquele programa que muitos não gostaram, mas que se chama Novas Oportunidades e que foi, de facto, uma oportunidade para ela. E continua a ser, porque até agora não mais parou de estudar.
Os meus avós eram pessoas pouco políticas, viveram durante o Estado Novo, onde nunca se falava de nada. Educaram os filhos como puderam, com direitos e regalias diferentes quer fossem homens ou mulheres. Porque era assim, não era de outra forma.
O meu avô, se ainda fosse vivo, teria um corte na sua pensão de duzentos e poucos euros. Porque trabalhou pouco e viveu acima das suas possibilidades, com certeza. Ninguém se lembra, dos meninos de fato sentados no parlamento, que Salazar tinha medo da educação e que poucos tinham acesso a ela. Que a grande maioria dos adultos deste país é analfabeto ou só tem a quarta classe. Que muitos arranjavam emprego por causa dos pequenos poderes instalados e que a função pública era (e é, muitas vezes) um luxo. Mas não para todos. Não para as empregadas de limpeza que ganham o ordenado mínimo, por exemplo. Há reformados de luxo, mas esses são os filhos de boas famílias que tiveram a sorte de estudar. Nada contra, todos deveriam ter tido este direito, que fique claro. Mas assim não foi, e os milhões de pobres trabalhadores, agricultores, operários e muitos outros, que não sabem ler nem escrever, que nunca se revoltaram porque viveram primeiro em ditadura e depois viveram sem saber o que fazer e qual o seu lugar. Quando não se pode pensar, não se pensa. Vive-se a apalpar terreno, a tentar não errar, nem ferir quem nos possa fazer mal.
Não se muda a história, e a nossa é triste. E não se podem cortar milhões em reformas de muitos que recebem muito pouco. Porque a nossa vida raramente é escrita por nós e sim pelos outros, pelos que mandaram, pelos que puderam.
E é isto que qualquer governante deve perceber: para mandar na vida dos outros é preciso percebê-la. E as nossas elites, ontem como hoje, são más a história e más governantes. E é tristeza em tristeza, de injustiça em injustiça, o meu país vai definhando e nunca se cumprindo. Falta sempre cumprir Portugal...

sábado, 4 de maio de 2013

O Sexo é uma ciência?



Sábado passado de manhã, Máxima na mão. Podia ter comprado o Expresso, mas fui de Máxima na mão. Demorei uma semana a ler a revista. Passei delicadamente e atempadamente pela sessão de moda e depois dediquei-me aos outros artigos. E foi quando descobri que o sexo se tornou uma ciência. Pois é, caros leitores, hoje em dia para fazer sexo é preciso um mestrado e uma possível inscrição para doutoramento. O tempo em que cada um sentia-se tão atraído pelo outro que não aguentava e, let's do it, já passou. Agora é preciso entender o parceiro, corresponder às expectativas, arranjar tempo para namorar, programar o tempo a dois, desfrutar do tempo a dois, realizar os desejos do parceiro...e isto é o básico. Depois, é preciso tirar um curso de preliminares, comprar lingerie, ter mãos suaves. Durante o sexo, segundo uma psicóloga Maximiana  " a mulher deve ir tateando seu corpo ( do homem) e perguntar se ele está gostando daquilo, além de tentar perceber a sua satisfação". Ou seja multitask: fazer, aproveitar, compreender e ainda analisar. É obra! No meio disto tudo, comecei a procurar cursos de sexo... Não compreendo a ciência e faltam-me informações básicas como: o sémen pode disparar até 2,4 m, 4000 mil pessoas está a ter sexo neste minuto, que a última gota de sémen tem um espermicida natural...
Tudo isto tem uma vantagem: a informação a mais é um bom contraceptivo. Ninguém vai fazer sexo sem ter na ponta da língua (literalmente) as melhores maneiras de fazer sexo oral, a lingerie preferida, o cheiro que agrada o "parceiro”. Portanto ninguém vai fazer sexo.
E isto é válido para ambos os sexos. Com tanta regra, tanto estudo, é absolutamente impossível que ambos, depois da fase animalesca, consigam ter bom sexo. É mais fácil correr a maratona e ganhá-la do que ter todos os predicados para praticar sexo. E numa crise sem dinheiro para lingerie, sem paciência para entender o parceiro, sem tempo para preliminares, o sexo é impossível.
E já agora, se fizerem sexo só venham ter comigo passado duas horas, É que na primeira hora o corpo deita fluídos naturais tentadores para os outros humanos e eu ainda não  sei o que fazer pois ainda não cheguei a essa parte na matéria.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O que está mal nesta história?

Hoje, dia 1 de maio de 2013, existem 923 mil pessoas desempregadas. Muitos são meus amigos e eu, de vez em quando, sou uma delas. Hoje, dia 1 de maio de 2013,  923 mil pessoas viram fechar a fábrica, a empresa, o escritório onde trabalhavam. Muitas delas são os empregadores que perderam o negócio, muitas deles a casa, e uns poucos a vida.
Hoje, dia 1 de maio de 2013, já faliram 424 empresas. Muitas já entregaram o plano de insolvência, mas os números ainda não foram actualizados. O pior ainda está para vir.  12 mil famílias estão insolventes: não têm dinheiro para comer, para pagar a renda de casa, nem para viver.70 mil pessoas que só têm a quarta classe não têm trabalho. E 70 mil, exactamente o mesmo número, de pessoas licenciadas não têm trabalho.
Por dia, 25 casas são entregues aos bancos, apesar do investimento já feito pelas famílias durante anos.
E, no  primeiro trismestre de 2013, os quatro maiores bancos privados portugueses tiveram 53,4 mil milhões de lucros.
O que está mal nesta história? 
Nada, porque segundo os nossos políticos,  não temos alternativa!

Feliz dia do trabalhador aos que ainda têm trabalho.O resto que fique quieto, entregue a casa ao banco, viva na rua, ou de preferência se suicide. Porque não temos alternativa.



sexta-feira, 26 de abril de 2013

Direito a ser infeliz

Existe uma grande diferença entre ser queixinhas e ser infeliz. Preferimos claramente os de primeiro tipo porque lidamos bem com as pessoas que se queixam, lidamos mal com a infelicidade alheia. As pessoas que se queixam da vida, do trabalho, do marido, sem terem verdadeiros ou grandiosos motivos para tal, são  bem aceites porque todos nós somos assim: pequenos queixinhas, habituais queixinhas. Que isto está mau, que me fizeram isto, que estou cansado, que a vida é difícil. Estamos todos preparados para as pequenas infelicidades ou revezes. Mas para a infelicidade total não estamos preparados nem sabemos lidar com ela. Quando conhecemos alguém que tem cancro, um filho muito doente ou perdeu o emprego e a casa, dizemos " força, as coisas vão melhorar". Incentivamos, somos positivos. Dizemos para ter fé, esperança num futuro melhor. E afastamo-nos da pessoa porque  a infelicidade permanente é pesada e nós já cumprimos a nossa obrigação: já fomos simpáticos, já visitámos a pessoa, já incentivámos. Fomos e somos tão boas pessoas, puxámos para "cima". The End.
A dor diária irrita, a pessoa que continua a ficar triste magoa-nos por não ver o lado positivo. O cancro vai passar, claro que vai, no fim vamos rir disto tudo. E tudo o resto vai passar, para quê ser infeliz? Admiramos as pessoas que não nos lembram permanentemente a sua dor mas  nos brindam com a sua alegria e boa disposição" Ah ele é tão forte, vai superar isto", "ah que lutadora, é uma inspiração".
Somos uma sociedade que nega o direito a ser infeliz. Negamos o direito à lamentação, à desistência, ao choro. Negamos tudo o que nos incomoda, somos eternamente positivos. Tornamos a infelicidade num tabu e nem sequer admitimos "pensamentos negativos" como se só e apenas a ideia de aceitarmos algumas evidências menos boas  as torne reais.Somos uma sociedade que aceita o choro em doses moderadas, mas não em doses constantes. Não concebemos a dor nem a morte como algo inevitável e que temos de assumir. Somos como um sopro  de vento no verão que há-de passar. Mas a vida não é sempre Verão e temos direito ao Inverno quando este chega e bate à porta. 
Portanto se está infeliz, se a vida é uma verdadeira madrasta para si,  chore, seja infeliz. Tem esse direito!


A infelicidade é a nossa maior mestra e amiga. É a que nos ensina o sentido da vida."
 Anatole France

terça-feira, 23 de abril de 2013

Búzios, tarot, cartas e magia... Ou tudo aquilo em que queremos acreditar.

A ciência é a nova fé de muitos que se consideram, como eu, gente do século XXI. Acredito na razão, nas explicações científicas, em fenómenos naturais. E, inocentemente, acreditava que todos pensavam como eu. Que isto dos tarots até tem piada mas é uma vez. Que aquela amiga que lê as mãos o faz por graça. Que as pedras são uma coisa gira para se ter na carteira até se perderem. Eu pensava que todos pensavam como eu nestes assuntos. Que mais ninguém acreditava em bruxas e bruxarias. Mas foi só começar a puxar o novelo, e pouco a pouco as cartas caíram tal como a minha estupefacção. Que aquela amiga acertou nisto e naquilo. Que a doença foi curada. Que desde que começou a ir "lá "as coisas melhoraram. Que há gente que nos quer mal. Que ele parece que está enfeitiçado. Brinca ,brinca, mas nunca se sabe.
Eu não acredito porque não quero acreditar. E não quero acreditar porque dar apenas a hipótese  de acreditar  no sobrenatural, na magia, no que lhes quiseram chamar, pode me levar para longe da minha verdadeira crença: a humanidade, o ser humano, com tudo o de bom e com tudo de mal.
Eu não acredito porque no caminho do imaterial está sempre presente a pequena  e a grande inveja, os jogos de poder, as nossas incapacidades de aceitar que o nosso amor gosta de outro alguém e que eventualmente  todos vamos morrer, seja tarde ou cedo, agora ou depois.
Compreendo e aceito a dor imensa que é lidar com tudo isto. Existem momentos em que ter de lidar com a dor nos consome, que admitir que vamos perder alguém é demasiado para nós,  que angústia de só termos um presente para viver e um futuro que é sempre incerto nos toma conta da razão e da emoção. Tão bom que era conhecer toda a história para a podermos mudar e, quem sabe, acrescentar finais felizes.
E aceito que no meio da dor, quando a ciência já não dá respostas, só a fé em algo torna possível a sobrevivência de nós. Mas sei, que nada mais há que a vida nas suas imensas dimensões: amor, ódio, raiva, desespero, esperança.
E não condeno que se busquem soluções desesperadas para situações angustiantes. Mas entre o procurar “algo” no desespero e viver o dia-a-dia acreditando que nos fazem mal, que o nosso amor se foi embora não por nós mas por feitiço, é colocarmos as nossas capacidades reais e humanas em muito boa conta. E de pequena ilusão em pequena ilusão, trilhamos um caminho sem retorno. Procuramos sempre outros culpados para as nossas histórias e novas soluções para os nossos problemas. E para a nossa ignorância, não há magia que nos acuda.

Tudo quanto se destina a surtir efeito nos corações, do coração deve sair.
Goethe