sábado, 16 de fevereiro de 2013

New Age

Eu curto bué a natureza,  A nossa sociedade é bué consumista, Adorava ter uma horta mesmo,  tipo ya ya ya. Detesto poucas coisas na vida, mas a malta New Age com o Ipad topo de gama com bué de "aplicações" e um Iphone anti-consumista, arrepiam-me desde a unha do pé até à raiz dos cabelos.Este nova espécie,  os neo-hippies-urbano-rural, com roupas compradas nas viagens dos povos bué simpáticos  a quem não se dá gorjeta mas se tiram fotos com uma câmara topo de gama,  fazem-me subscrever a lei das armas do radical mais radical americano, de Sarah Palin para cima.
Prefiro pessoas com ideias e actos que fazem sentido(muçulmanos extremistas, católicos e Jeová só para dar  alguns  bons exemplos)  do que  gente cheia de boas intenções que não são postas em práticas porque são mascaradas de desculpas.  E nem sequer são boas, são apenas ya ya também.A roupa da marca y é má, porque eu não ligo népias a isso, mas os ténis lololo são "muita" bons. Eu não gasto dinheiro num jantar com amigos, mas tipo fui com os meus pais a um sítio bué de chique e tal e bebemos um vinho muita bom, tipo bué da bom. Eu não posso ir aí  ter contigo porque vou viajar para a África quatro semanas, tipo mochila às costas, estás a ver? Tipo bué simples e tal. Mas agora(e o agora é eterno) não posso gastar dinheiro a ir ter contigo. E tiro umas fotos lindas, mas não pago para entrar em nada e fico a fumar umas ganzas  no hotel, com people bué de louco.Mas a verdade é que estas pessoas são coerentes e  fieis a um só Deus: o seu Eu próprio. Os neo-hippies  amam-se, adoram-se, beijam-se, mimam-se e idolatram-se. Tudo isto disfarçado de bué simplicidade e muita tecnologia. Para tipo ver o mundo sabes, mas bué diferente ok?
Isto aos 20 e poucos até se aguenta, mas aos trinta e muitos e alguns a roçar os quarenta, não se torna nem sequer ridículo. Torna-se apenas patético.Tipo bué!





sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A Tortura do Dia dos Namorados.

A nossa forma de estar na vida alterou-se, dramaticamente, no século XX. Os direitos que as mulheres adquiriram, mudaram completamente as relações humanas construídas ao longo de séculos de História. Os papéis que cada sexo desempenha transformaram-se de tal maneira que, muitas vezes, temos conflitos entre o que nos foi ensinado e o que podemos fazer. Muito ainda há que caminhar nas igualdades, porque a Europa é um oásis no que toca a direitos humanos. Mas, velhas formas de conduta, não desaparecem de um dia para o outro. Na História, quando algo é imutável, chamamos-lhe a  Lei da Persistência dos Planos. Esta lei explica que nós, seres humanos, temos tendência a ocupar o que já foi ocupado, a repetir o que nos foi ensinado e a ter comportamentos iguais aos nossos antepassados. O dia dos namorados nada mais é que a aplicação desta lei. O que está subjacente ao dia dos namorados é a imutabilidade do pensamento que séculos de modos de vida tornaram presente: Ter que ter alguém. Ter de construir uma família. Ser feliz no amor. Estas obrigações que impomos a todos nós, em nome da felicidade ou apenas para a preservação da espécie humana, é tão enraizada que temos de a celebrar. E celebramos com rituais como o casamento, o noivado e o dia dos namorados. Enquanto os dois primeiros são, quase sempre, uma escolha voluntária dos apaixonados, o dia dos namorados é uma ritualização obsessiva da felicidade amorosa. E é impossível escapar porque não só o comércio se apropriou, e bem, desse dia, como todos nós de alguma forma ou de outra nos lembramos dele. Ou porque o desprezamos e fazemos questão de o dizer, ou porque o amamos e fazemos questão de o celebrar.
Mas, no fundo, é uma obrigação de uma sociedade que ainda pretende manter velhos ritos e velhas normas. O que no íntimo pensamos é que estar sozinho é mau e sinónimo de algum defeito, e estar com alguém é bom e garantia de felicidade. Sabemos perfeitamente que, muitas vezes, assim não é. Mas os rituais persistem, mantém-se e alimentam-se de sentimentos tão variados como o amor, a inveja, a obsessão ou a tristeza. E para muitas pessoas o dia dos namorados é tudo isso.
Portanto, se estiver sozinho/a neste dia, aguente que vai passar. E se estiver acompanhado aguente também que vai passar. Porque é só um dia, bom ou mau, é só mais um dia. Será a soma dos nossos dias, no fim, que nos revelará como foi a nossa vida. Com ou sem "alma gémea", com ou sem rituais, o que importará foi o demos de bom aos outros e os outros a nós.E isso é Amor.
Feliz Dia dos Namorados!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

É Carnaval!


Há 10 mil anos, antes de Cristo descer à terra e fazer o que toda a gente sabe, já havia malta  que numa época do ano, a que actualmente chamamos  Fevereiro ou Março, reunia toda a família e amigos e pessoal do bairro e fazia uma grande festa. Pintavam-se, colocavam máscaras, suponho que bebiam e comiam e outras coisas mais, tudo com o objectivo de afastar os maus espíritos que podiam estragar as colheitas. Os gregos, povinho bom, filosófico  com gosto pela política , também se mascarava e comia e bebia e outras coisas mais que a vida é para se viver, tudo para agradecer as colheitas. Neste tempo, o dos gregos,  é provável que estas festas se realizassem aí para Maio, mas festa é festa e é de festa que estamos a falar.  E depois vieram os católicos, com as suas leis e morais, mas nem eles atacaram essa festa pagã. Porque se temos de rezar para expiar pecados, então é bom que se cometam, certo? Mas o Papa Gregório, nesse ano de 604 disse o seguinte; "Ok, façam a festa, que depois quero não comam carne durante 40 dias". E o povo disse: "está bem, desde que a festa seja boa".  E, de certeza que houve um chico-esperto que se virou para o Papa e disse.. "Oh Gregório, a vida são dois dias, o Carnaval são três".  Eu não estive lá, mas se estivesse tinha aplaudido!Como esta gente das Igrejas gosta de tudo bem controlado, reuniram-se em 1901 e disseram: "a quarentena começa na quarta-feira, última dia da Festa". E a malta, toda triste disse :"Isso é um enterro de tão triste que é. Chamemos-lhe Quarta-feira das Cinzas".
E o Carnaval dura até hoje. E é mais importante que o Natal em muitas zonas do país. No Alentejo uma colega está a fazer um levantamento sobre tradições, o chamado levantamento do Património Imaterial.  E não é que  rapariga está chocada porque os velhos nada ligam ao Natal. Para eles a festa da família não é o Natal mas sim o Carnaval. E faz todo o sentido. O Natal, tal como o conhecemos, é um produto do século XX com o Pai Natal vermelho da Coca Cola.Belo marketing, não tenhamos dúvidas!
Mas o Carnaval não. O Carnaval é antigo, é herege, é pagão, é festa  e é folia. É aquela altura em que despimos as máscaras e colocamos outras, bem melhores, bem mais divertidas. O Carnaval é a minha festa e se há coisa que embirro é quando ouço um "iluminado" (ou seja um idiota que engoliu uma lâmpada, vulgo político actual)decidir que o Carnaval não é importante e a malta boa não tem direito a se divertir. Porque se é de cultura e de tradições que estamos a falar, então não há razões para terminar com o Carnaval. Porque cada um gosta e tem direito a gostar do que gosta. E a festejar aquilo que quer, seja o Natal, o Hannukah,  a Páscoa, as datas especiais ou tudo isso junto. E porque antes de governos e de políticos já o Carnaval existia.E é a minha festa, a minha alegria.  E portanto:Viva o Carnaval, porque como disse o chico- esperto a Vida são dois dias e o Carnaval são três!

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

As três fases do amor.

Vi-te e desejei-te. Tinhas porque tinhas de ser meu. Senti um mau estar físico por não te ter, o ritmo cardíaco acelerava de cada vez que pensava em ti. Perdi o sono , perdi a vontade de comer. A minha razão de viver eras tu, tão inalcançável,  tão belo, tão longe de mim. Sabia  que tinhas de ser meu. Cortejei-te, segui-te, não te perdi  de vista só um instante. Mas de nada resultou e a minha paixão por ti só aumentou, assim como o meu desespero.É a esta fase que os  entendidos chamam a fase da luxúria  e eu chamo-lhe a fase do desespero, tão forte que o desejo estava entranhado em mim.
Até que, por fim, cedeste. Foste chegando mais perto, cada vez mais perto, quase que te podia tocar. E nesse momento foi a minha vez de me fazer difícil. Esperei e esperei até ao limite da paciência, até ao limite da loucura. E, passado tanto tempo, agarrei-te para a vida. 
Agora, estamos na fase do enamoramento e eu sei que nada nos irá separar. Tu foste feito para mim e eu cuidarei de ti para sempre.Todo o meu tempo e energia serão dedicados a ti, tu serás a luz dos meus olhos.  Cada vez que olho para ti percebo que não és um entre iguais, és o tal!Aquele que se destaca no meio da multidão. The one! 
E, quando chegarmos à terceira fase, a que todos chamam amor e os cientistas chamam  fase da permanência, em que os dois se tornam um durante um longo tempo que pode ser toda a vida, juro-te meu querido vestido preto e branco, que cuidarei de ti até que a tua malha se desbote ou o meu corpo te rejeite e me deixes de servir. Mesmo assim lembrar-me-ei de como fomos felizes e de como me ficavas tão bem.



 Posso resistir a tudo, menos à tentação.

Óscar Wilde in O Leque de Lady Windermere.





terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Lance Armstrong: culpado ou vítima dos tempos?

Resposta à pergunta: culpado. Culpado, culpadíssimo, extra culpado. Vi, com muita atenção, a entrevista que o ciclista deu à Oprah. Foram duas horas e meia de ataque, perguntas directas e pouca margem para escapatória. E o resultado é só um: Lance Armstrong é batoteiro, arrogante e mentiroso até ao último grau.
No entanto, houve algo que me faz atenuar o meu próprio julgamento de Lance Armstrong.  A certa altura, o ciclista fala da cultura dos anos 90. E se há coisa que eu me lembro muito bem foram os anos 90. 
Os anos 90 foram os anos da cultura do sucesso. Não havia crise económica nenhuma e todos os filmes e todas as séries falavam de sucesso. Falavam do sucesso na banca, falavam da família perfeita, falavam de histórias do pobrezinho que se tornou milionário. Todos vibrávamos com Beverly Hills 90210,o grupo de betos que sofria com o sucesso. Friends retratava o grupo de amigos que sofria de amores e injustiças mas  que atingia a felicidade  monetária e pessoal no fim da história. E de filmes, basta citar Wall Street.  Quem não se lembra da ganância da bolsa, a tentativa de atingir o sucesso a qualquer custo?  O bem ganhava, mas o sucesso era demasiado tentador  e  este filme foi, para tantos, uma escola de vida.As revistas femininas, masculinas e  as do coração apresentavam os empresários  e as empresárias do ano,  davam conselhos sobre como subir na carreira e conselhos sobre como nos devíamos vestir para subir no escritório. Haviam cursos de sobrevivência para empresários, com treino militar, para que estes não sucumbissem às emoções mas fossem duros e implacáveis a negociar. E a Católica formava os nossos implacáveis gestores de sucesso, os CEO do futuro. Foi o tempo em que a escala da nossa vida era medida pelo bom emprego que tínhamos ou não, pelo dinheiro  que tínhamos ou não, pelo sucesso que tínhamos ou não. E ganhar era a palavra de ordem.
Ganhar na vida como no desporto. Ser implacável e atingir o objectivo final. Ganhar sempre. Ter sucesso sempre.
Não quero com isto desculpar o Lance, como é óbvio. Quero apenas que reflictamos que nós ,como sociedade, aceitamos e assumimos um modelo. E esse modelo, quando aplicado, pode trazer consequências feias e que depois negamos, como se nós não percebêssemos o que se passou e nenhum de nós , alguma vez, pudesse ter tido aquela reacção. Não acredito em culpas colectivas, nada disso. Mas também me aflige a subida idolatrada de um anjo e a queda de um demónio. E creio que todos nós, como sociedade, devíamos pensar mais na substância das coisas do que no folclore que as rodeia.
Lance é culpado? Absolutamente. E nós, como sociedade, somos inocentes? 

"O sucesso: / entre os mortais, este é um Deus  ou melhor, mais do que um Deus."

Ésquilo, as Coéforas.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Os que partem!

Mais um a partir. Tem sido assim, quase todos os meses: mais um amigo que parte. Mais um familiar que decide que já chega de pobreza e volta para o país que pensava já ter deixado de vez. Novos e velhos emigram todos os dias. Emigram os analfetos, os com pouca escolaridade e os mais bem preparados de sempre, muitos com mestrados e doutoramentos.Partem todos.
O aeroporto de Lisboa deixou de ser local de partida para férias felizes e aventuras desejadas noutros locais do mundo, para se tornar cemitério de afectos com muitas lágrimas de despedida.
A minha emigração não é a mesma dos meus pais, dos meus tios e dos meus avós. Os que agora partem levam no coração o país que os viu nascer mas  Portugal já não será o país onde se vem morrer. Parte-se sem vontade de algum dia regressar, de construir a sua casa na terra. Parte-se sem esperar um ano inteiro por aquele querido mês de  agosto porque " vale mais um mês aqui que um ano inteiro lá", como cantava Dino Meira. Parte-se sem volta. O país que os receber será o país que os verá crescer, viver e morrer. E será esse país que fará os muitos portugueses  felizes porque lhes dará o que Portugal não deu: um futuro.  Portugal será só uma memória algumas vezes risonha, algumas vezes triste mas sempre distante.A saudade do bacalhau e dos pasteis de nata baterá à porta muitas e muitas vezes mas a alegria da moamba e dos peixes fumados do país que agora é deles ,atenuará as lembranças daquele país com sol, com mar e com imensas potencialidades sempre prometidas e nunca cumpridas.
Talvez o fado de Portugal seja esta eterna ausência de esperança. Acreditamos no que poderemos ser mas nunca somos.E como nunca somos, novos mares, novos rios, novas terras nos abraçam. E pouco a pouco ficará ainda mais vazio  este país desertificado de onde os velhos têm de sair e os mais novos não querem voltar.E pouco a pouco, todos partem.


Onde me levas, rio que cantei

Onde me levas, rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me leva?, que me custa tanto.
Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa.
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos.
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos, com espasmos.

Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra fase na vida transbordante:
que seja nessa face que me perca. 
Eugénio de Andrade in As Mãos e os Frutos

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Fernando Pessoa ou a (In)Glória de ser Português!

Quem é este homem estudado nos nossos livros da escola a quem a minha horrível professora de português descreveu como o" poeta que morreu de cirrose"? Amado por muitos, Fernando Pessoa não teve a consideração em vida que  a sua mente genial deveria ter tido. Homem de paixões, provavelmente esquizofrénico mas de uma lucidez sobre o mundo que mais ninguém teve ou tem, Fernando Pessoa transformou-se em muitos  outros que mais não eram que a essência de se ser Português: a multipluridade do que somos, as culturas que abrangemos e a capacidade de ser absolutamente bom ou tremendamente mau.
O que me espanta em Pessoa é a sua capacidade para o sofrimento: genial mas enfiado num escritório de contabilidade, aturando muita gente idiota que ocupava cargos acima de si. Portugal de ontem e Portugal de hoje: os piores a ocuparem cargos e regalias, os melhores a ocuparem sonhos e subjugações.
E, mesmo assim, mesmo sem lhe deitarem rosas a cada poema que escrevia, sem lhe baterem palmas de cada vez que saia à rua, recusando-lhe o cargo de director do Museu de Cascais por não ter capacidades ( o que seria esse museu, só imaginando...), Fernando escreveu o poema mais arrepiante sobre Portugal, carregado de beleza, magia e grandiosidade.  E isto faz-me  pensar que ser Português é a inglória dos geniais ou será que Portugal merece ser amado por aqueles que maltrata mas que ainda sonham por um Portugal  que se cumpra?Talvez Deus queira, o homem sonhe e a obra nasça, contra ventos e tempestades, contra as injustiças, contra as mesquinhezes que nos proíbem de ser mais do que somos.É uma pena, porque falta cumprir-se Portugal!

Deus quere, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagroute, e foste desvendando a espuma,


E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.


Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!


Fermnado Pessoa, O Infante,  Mensagem