Desculpem leitores masculinos, mas esta
crónica é exclusivamente para mulheres. No entanto, podem ler e perceber como
é,realmente,o nosso mundo.
Existem perguntas que nos perseguem toda
a vida. São mais insistentes em algumas épocas, mas fazem perto do
nosso crescimento. Já começam a reconhecê-las?
Até aos 10 anos, as perguntas são: então
já sabes ler? Passaste de ano? Vais de férias com os teus pais? E para onde?
Geralmente estas últimas duas perguntas são sempre feitas por membros da
família com segundas, terceiras e quartas intenções, que só muito mais tarde
reconheceremos.
Mas é a partir dos dez anos que a vida
das raparigas se complica. E qual é a pergunta que nos persegue? É essa mesmo,20
pontos: já tens o período? Ou na variante mais popular: já és uma mulherzinha (sim,
o estatuto começa aqui)? Ou ainda, na sua
vertente mais popular (mas mesmo popular, ou seja do povo): então, já joga o Benfica? Esta última deixa-nos
confusas, baralhadas e muito angustiadas. Por mais que sejamos acérrimas
defensoras do clube, nunca mais o vemos da mesma maneira. Porque a imagem é
muito visual e pouco polida, digamos assim.
A partir dos 15/16 a pergunta altera-se.
É feita a nós, aos pais,aos amigos: então, já tens namorado? A sua filha já
namora? Não? Ah, a minha sim, com o filho do não sei quantos e tal... Nesta
altura pensamos em emigrar, mas não temos ainda idade legal para isso. E quando
passamos a ter aí a pergunta muda: então, já casou? Vai casar? Quando vai
casar? Ai, não vai casar?
Casar torna-se uma obsessão social tão
grande, que tenho a certeza que muitas amigas minhas se casaram só para não
terem de ouvir nem responder a esta pergunta mais vez nenhuma.E é por isso que
se usam alianças: é a imagem visual do “já
casei, por favor não me façam mais esta pergunta.”!
E a partir da 30,a pergunta é só uma:e
filhos? Esta pergunta é universal. Não interessa se se é casada, solteira,
divorciada ou até um pouco anti-social. A pergunta, por ser universal e
absolutamente intrometida, persegue-nos sem tréguas. Já tem filhos? Já tem
filhos? Já tem filhos, até à exaustão!!!!!!
E no meio de tantas perguntas, nunca ninguém nos faz a mais desejada. Aquela que merecemos responder para poder continuar a viver em pleno: qual é o teu sonho? Porque desejos e ambições não são socialmente aceites e por isso não se perguntam. Os sonhos devem ser retraídos, fechados,
em nome de um bem maior: a ordem pública. Aquilo com que conseguimos conviver.O banal. O normal. Ler, namorar, casar, ter filhos.
E
por isso, porque os sonhos, quando os temos, são ilimitados, e por isso ninguém, mas mesmo ninguém nos faz
esta pergunta.
Mas eu não quero cair no mesmo erro e
por isso pergunto-te, tenhas 10, 20 ou 30 anos:
Qual
é o teu sonho?
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão, Movimento Perpétuo, 1956